EDITORIAL – V.01 #01

E vem à luz o primeiro número da revista Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea (PFC), organizada pela Sociedade Brasileira de Psicopatologia Fenômeno-Estrutural (SBPFE). Como todo fato cultural novo, merece alguns apontamentos acerca das razões que justifiquem a sua criação, assim como exige a clara manifestação de seus propósitos. Embora a psicopatologia fenomenológica tenha quase um século de criativa existência (um breve histórico da vertente fenomenológica em psicopatologia pode ser encontrado no site da SBPFE) e tenha se difundido por vários países e motivado publicações originais em muitas línguas, ainda não se pode dizer que haja amplos canais de difusão para a pesquisa nesse gênero de atitude epistemológica e antropológica. Talvez a principal dificuldade para uma ampla difusão das obras dos cientistas ou pensadores dessa corrente seja exatamente a ênfase dada na particularidade autoral. Torna-se um exercício editorial por vezes complexo procurar reunir a diversidade das perspectivas de cada autor sob um eixo principal, dada a multiplicidade de influências formativas que caracterizam a tradição fenomenológica. Esse é o desafio da revista Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea, reunir e mesmo estimular a diversidade autoral, ofertando espaço para que as ideias que disso surjam possam ser divulgadas para o maior número possível de leitores. O público a que se destina é todo aquele falante da língua portuguesa que se interesse pela psicopatologia fenomenológica, no sentido o mais lato possível do termo. A rigor, por psicopatologia fenomenológica será entendida toda e qualquer produção intelectual que se reconheça tributária dessa larga paleta de autores – que aqui não serão denominados, pois nenhuma lista seria isenta do risco de injustiça – que fizeram a aplicação da atitude fenomenológica no campo da psicopatologia, da psicologia e psiquiatria. A opção pelo público de língua portuguesa não impede que artigos em outras línguas possam vir a ser publicados – nessa edição, um artigo em inglês – almejando sempre a ampliação da base de diálogo da revista com seus leitores.

O conteúdo dessa edição inaugural, que obedece fielmente os propósitos gerais da revista, apresenta simultaneamente o melhor da tradição e os novos desenvolvimentos e interesses da produção não apenas brasileira, como francesa e italiana. Essa dupla face de preito à tradição e estímulo à criação é representada na imagem da capa, na qual a figuração do “kairos”, o momento oportuno e transitório da medicina grega antiga, indica a necessidade de se articular dialeticamente a manutenção do equilíbrio que estabiliza com o desequilíbrio que permite o avanço.

É propriamente essa relação entre equilíbrio na tradição e desequilíbrio por meio da inovação que orienta os textos publicados nessa edição. Trazemos a público, representando a tradição, pela primeira vez traduzido para a língua portuguesa, o famoso caso Suzanne Urban, de Ludwig Binswanger, talvez a apresentação de caso mais primorosa já realizada no campo da fenomenologia. Da mesma maneira, o leitor poderá encontrar mais olhares revelando a psicopatologia fenomenologia, no Brasil e fora dele, em perspectiva histórica. Do lado dos novos desenvolvimentos, a série de artigos que é oferecida ao escrutínio público, embora mantendo a variabilidade da presença autoral, traça duas linhas principais de interesse: a definição de tipos psicopatológicos essenciais, discriminados pelo instrumento da diagnose diferencial; e a caracterização e observação reflexiva dos movimentos de progressão da existência, nos quais a tensão entre estrutura estável e transformação modificadora torna-se tema preponderante. Que o convite à expansão das formas fenomenológicas de pensamento, contido no lançamento dessa nova empreitada intelectual, possa gerar fecundidade e congregar novos interessados, é o nosso maior propósito.

Guilherme Messas
O Editor