EDITORIAL – V.02 #02

Duas linhas mestras orientam esta nova edição de Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea: a do aprofundamento da ciência psicopatológica como instrumento diagnóstico e a dos diálogos da psicopatologia fenomenológica com saberes e práticas exteriores a ela. Essa escolha de temas procura obedecer ao princípio de que toda psicopatologia deve, simultaneamente, progredir no aperfeiçoamento de seu olhar interior e alargar sua atuação, visando ao contato com frentes do exterior. É desse diálogo que o conhecimento psicopatológico haure seu valor para a sociedade e para a cultura, aguçando a compreensão do adoecimento mental, apresentando à sociedade os resultados desse procedimento e, ao mesmo tempo, recebendo dela influxos salutares para impedir o maior defeito de uma ciência – o ensimesmamento infértil.

Na frente do desenvolvimento científico “interior”, temos dois artigos com objetivos diferentes. Jean-Marie Barthélémy radicaliza a utilização do método de Rorschach em sua vertente fenômeno-estrutural, apresentando as ricas consequências de sua utilização nas toxicomanias. Gustavo Julião de Souza revela, por meio de seu método fenomenológico-dinâmico, a importância do estudo atento das tensões entre morbidez e personalidade pré-mórbida para a exatidão do diagnóstico.
Na vertente “exterior”, Gustavo Gil Alarcão realiza um ensaio biográfico bastante original, examinando a relação de amizade entre Binswanger e Freud e desvelando-nos com isso os diversos planos de imbricação entre estes patronos da fenomenologia e psicanálise, respectivamente. Da seara da filosofia, Frank Töpfer mergulha com notável detalhamento nos conceitos de doença mental (em suas relações com a normatividade) de dois fenomenólogos fortemente influenciados por Heidegger: Binswanger e Medard Boss. Por fim, como toda ciência deve manter-se viva pela transmissão de seus saberes, Lívia Fukuda avança pelo terreno da educação médica, refletindo sobre o papel da fenomenologia na formação psiquiátrica e relatando a experiência de um serviço específico, vivido em primeira pessoa.

Esta edição comporta também uma inovação que reclama justificativa. Originalmente a revista propôs-se a publicar colaborações em português, espanhol e inglês. Contudo, nesta edição, o trabalho de Barthélémy é publicado no original, em francês. O objetivo desse alargamento é, seguindo a política editorial da revista, permitir que as expressões autorais sejam respeitadas ao extremo, fazendo do periódico um pólo de fomento da diversidade e criatividade psicopatológicas. É nossa convicção que a língua na qual se produz o pensamento fenomenológico não é mero instrumento de comunicação de ideias, mas constituinte primordial da própria produção e doação de significado delas. Assim, sempre que possível, procuraremos manter esse elo original entre revelação de mundo e linguagem.

Guilherme Messas

O editor

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