Conhecimento tácito e raciocínio clínico em psiquiatria

Claudio E. M. Banzato e Rafaela T. Zorzanelli

Claudio E. M. Banzato e Rafaela T. Zorzanelli

Conhecimento tácito e raciocínio clínico em psiquiatria

Clínicos alternam constantemente o foco de sua atenção quando se deparam com um paciente que apresenta fenômenos psicopatológicos. Seguramente, não é possível determinar de antemão (ou seja, até que se passe algum tempo do processo de avaliação diagnóstica) onde reside o problema, se é necessário operar um zoom in e investigar o cérebro do paciente (ou os genes), ou operar um zoom out e prestar atenção especial a seu mundo relacional (ou social), ou, ainda, se devemos nos concentrar em sua própria experiência subjetiva. Em psiquiatria, lidamos com sujeitos corporais e suas ações, tal como descritas dentro de um contexto, não meramente com disfunções de partes do corpo. No entanto, se rejeitamos o reducionismo, isto é, a ideia de que há um nível explicativo único e fundamental para todos os transtornos mentais, e adotamos, em vez disso, um modelo multinível dentro de uma posição explanatória pluralista, permanecerá indeterminado se tais mudanças nos níveis explanatórios que ocorrem na prática clínica cotidiana podem ou não ser inteiramente codificadas ou, em outras palavras, em que medida essas mudanças se apoiam, inevitavelmente, em um conhecimento tácito. Se esse é o caso, não seria possível codificar o julgamento clínico em algoritmos, mesmo que muito sofisticados.

Palavras-chave: Modelos multinível; Pluralismo explanatório; Julgamento clínico.

 

Tacit knowledge and clinical reasoning in psychiatry

Clinicians constantly shift the focus of their attention when seeing a patient who presents psychopathological phenomena. Arguably, it is not possible to tell in advance (that is, before quite a while in the diagnostic assessment process) where the problem lies, whether it is necessary to zoom in and look into the patient’s brain (or genes), or if we have to zoom out and pay special attention to his/her relational (or social) world, or if we should concentrate on his/her own subjective experience. In psychiatry, we deal with embodied subjects and their actions under description and within context, not merely bodily dysfunctions. However, if we reject reductionism, i.e., the very idea that there is a single fundamental level of explanation for all mental disorders, and adopt instead a multilevel model within a pluralist explanatory stance, it remains to be determined whether or not such changes of explanatory levels that take place in everyday clinical practice can be fully codified or, in other words, to which extent they inevitably rely on tacit knowledge. If that is the case, then no algorithm, however sophisticated, can fully capture clinical reasoning.

Keywords: Multilevel models; Explanatory pluralism; Clinical judgment

Fonte: Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea, 2017;6(2):81-92.

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